segunda-feira, 31 de maio de 2010


"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante".

(LISPECTOR, C. Felicidade Clandestina
in Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século - p.314)


Clandestina Felicidade no Porta Curtas:
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=311&Exib=1

quinta-feira, 27 de maio de 2010


En una ocasión me preguntaste:
-¿Qué es la poesía?
¿Te acuerdas? No sé a qué propósito había yo hablado algunos momentos antes de mi pasión por ella.
-¿Qué es la poesía? - me dijiste.
Yo, que no soy muy fuerte en esto de las definiciones te respondí titubeando:
- La poesía es... es...
Sin concluir la frase, buscaba inútilmente en mi memoria un término de comparación, que no acertaba a encontrar.
Tú habías adelantado un poco la cabeza para escuchar mejor mis palabras; los negros rizos de tus cabellos, esos cabellos que tan bien sabes dejar a su antojo sombrear tu frente, con un abandono tan artístico, pendían de tu sien y bajaban rozando tu mejilla hasta descansar en tu seno; en tus pupilas húmedas y azules como el cielo de la noche brillaba un punto de luz, y tus labios se entreabrían ligeramente al impulso de una respiración perfumada y suave.
Mis ojos, que, a efecto sin duda de la turbación que experimentaba, habían errado un instante sin fijarse en ningún sitio, se volvieron entonces instintivamente hacia los tuyos, y exclamé, al fin:
-¡La poesía... la poesía eres tú! [...]

(BÉCQUER, Gustavo Adolfo - Carta Primeira
in Cartas literarias a una mujer - 1860 )


Las clases de Literatura Española son, a cada día, más valiosas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010


O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.

— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta
listada?

A moça se lembrava:
— A gente fica olhando...

A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:

— Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.

O rapaz concluiu:

— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

[BANDEIRA, Manuel. - Namorados
in
Estrela da vida inteira p. 142-143]


"A meninice brincou de novo nos olhos dela". Nos meus olhos anda brincando, festejando e ocupando seu espaço.
E é assim que a meninice salta aos meus olhos: como uma loucura, e eu, menina de tudo, sobrevoo essa imensidão sem (ainda) me preocupar em puxar a cordinha. A queda é livre, e eu a escolhi, sem medo de cair; sem medo de ser eu uma lagarta listada.


"- Fernanda, você é engraçada! Você parece louca".

quinta-feira, 20 de maio de 2010


Plantei num jardim um sonho bom,
Mostrei meus espinhos pra você.
Faz que desamarra o peso das botas e fica feliz.
Abre o guarda chuva que hoje o sol desistiu de sair.
Esse perfume de alecrim
Trouxe de volta um sonho bom.
Posso até olhar pela janela
E recitar "une petit chanson"

Cantei pra você meus velhos tons,
Perdi seu ouvido pro jornal.
Eu trago a dança que me inspirou o café sem açúcar e tal.
Analise o fundo da xícara, a esperança é igual.
Eu confesso só me resta a vida inteira.
Só me resta vida em mi maior e lá.


Sweet Jardim - o doce jardim da Tiê, que tanto vem me fascinando e viciando...

sábado, 15 de maio de 2010

[Mulher ao espelho - Pablo Picasso]

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

[Retrato - Cecília Meireles]


O correr da vida muda tudo. (ah, Rosa!) E eu mudei. Mudei de ares, mudei de olhares, mudei de pensares. Gradativamente mudo e trago nessa mudança uma bagagem de incertezas: "E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem então agora eu seria?".
A única certeza, Cecília, é a da mudança, mesmo assim triste, de olhos vazios e lábio amargo. A face? Que se faça, se desfaça e se disfrace - a imagem refletida no espelho é sempre a mesma, mas muda de sentido.

domingo, 2 de maio de 2010

"Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebradiça". (Clarice Lispector)


Sensibilidade à flor da pele. Compreender o subjetivo, ler nas entrelinhas, "reemplazar palabras por miradas". Compartilhar todas essas sensações através de um olhar, sem precisar falar, gesticular ou insinuar: só sensibilizar. Sentir e ser sentido assim, por meio dos sentidos, mas sem sentido algum. (Fez sentido?)
É querer que meus anseios transcendam a mim mesma, e que se possa observar seus sinais e compreender seu rumo.

Eu só caibo no sentir.