quarta-feira, 25 de maio de 2011



Tudo parece uma besteira,

a experiência diluída no cotidiano,

até que vem

uma dor de cabeça


uma ressaca de tudo:

o amor, a memória e outras funções

inevitavelmente

se perdem


e o corpo procura um ponto

de fuga, um lugar

onde se resguardar

como se acobertasse um crime.


[FERRAZ, H. - Outras panes, p. 31 - Pré-Desperto

in Coisas Imediatas (1996-2004)]



fujo




refúgio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Clara, minha Clara, não me conte, cante. Não me conte contos nem me conte contas, cante.

Sur le pont de Nantes... 20


Recite: tragédias populares decorrentes da desobediência. Meninas-ofélias boiando na harmonia das ninféias. Menina: desobediência devorada no ventre frio das águas, no ventre quente dos lobos.

Canta Bárbara:


Il pleut sur Nantes
Donne-moi la main
La ciel de Nantes
Rend mon coeur chagrin... 21


Não foi por falta de água, Jules-Vernes-Nantês, que o Titanic afundou. As lágrimas de Alice gigante afogam seus portos frios e cinzas. Nantes.
Bárbara: lança chuva fria para aquecer o coração claro de Clara, gélido:


Il est parti sans un je t´aime.
Mon père, mon père. 22


Guidone, desconstrói:

Comme dit Marguerite Duras en experte
Ce monde est pourri, qu´il aille à sa perte. 23


Deite-se nos não-me-importo. Orelhas furadas no berço: você é mulher. Estigmatizada, separa, cinde, perfura. Põe um chumbo em cada orelha. Empurra a cabeça para baixo... Você queria olhar para o fundo escuro dos olhos negros da abuela. Alçava a cabeça sem custo, no esquecimento do peso, talvez demais, altiva. Sempre para o mar tristonho de seus olhos de Pasionaria calada.
Cante:


Porque te vas
Todas las promesas de mi amor se irán con/ti/go...


Tão alegrinho, tão inocente, como a culpa assassina da menina-cria cuervos. Trilha musical. Intérprete: Jeanette, eterna mocinha que também dizia: Iou, souy reibeldeee puorque o mundo me hixo asssi...
Com cara de anjinho, sem culpa, sem sotaque britânico, sonsa, com sucesso, sem frivolidade maior, com não-culpadps e sim-atenciosos, desfolhando a margarida sem piedade: Il m´aime, passionament, à la folie, pas du tout. 24
São 25% de chances para os paus du tout; 75% para o sim, contra toda a estatística objetiva. Margarida murcha que canta na escala de Dó Maior. A dominante.
Você prefere a de ré, a menor.
Regina de Elis, repetência escolar, Réquiem por un campesino español ou não, resdistribuição de renda, restituição do patrimônio roubado, requebros nas procissões, rebentos relutantes sem Petit Prince preso à idéia; ressonâncias sem magnetismo, reaprender as origens, re-isento de bis, como da primeira vez.
Dorme Clara. Eu vigio.
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*Notas de rodapé:
20 Na Ponte de Nantes, canção popular francesa que pune a desobediência de uma jovem que, escondida, vai dançar na ponte da cidade e acaba caindo - e morrendo - nas águas do Loire.
21 Chove em Nantes/ dê-me sua mão / o céu de Nantes / torna meu coração triste.
Canção de Bárbara (1930-1997) dedicada ao seu pai, in memoriam. Nela, Bárbara o perdoa pelo abandono e pelo incesto sofrido na infância.
22 Ele se foi sem um te amo, / meu pai, meu pai.
23 Como diz Marguerite Duras, uma expert / este mundo está podre, que vá à sua perda.
24 Ele me ama, com paixão, com loucura, de maneira alguma. Dizeres com os quais, na França, se despetala a margarida.
[AYBAR, Lola - Ré menor
in Fuga em azul, Escrituras Editora, 2007]
Um encanto de livro, de professora e, acima de tudo, de ser humano.
"Gracias, tia Lola!", como se ouve por aí... ;)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

(Jackson Pollock - Number 7 - 1951)

"Já naquela primeira conversa sobre o pinheirinho, chamou-se a si próprio de Lobo da Estepe, e isso também me causou estranheza e perturbou um pouco. Que expressão aquela! Mas acabei por admiti-la não só por hábito, como porque, em meu pensamento, só chamava o homem por aquele apelido de Lobo da Estepe, e até hoje não saberia dar-lhe nenhum outro nome mais apropriado do que este. Um lobo da estepe, perdido em meio à gente, na cidade e na vida do rebanho - nenhum outro epíteto poderia definir com mais exatidão aquele ser, seu tímido isolamento, sua natureza selvagem, sua inquietude, seu doloroso anseio por um lar, sua falta absoluta de um lar."
[HESSE, Hermann - O Lobo da Estepe
Editora Record (1927)]


É assim que começo um novo ano: com a sensação da mistura de todos os outros que já se passaram, e prossigo, assim, à caminho do novo, definitivamente sem por ele querer perseguir. Dentro dessa mistura toda, surgiu Hesse com seu lobo, me fazendo parar mais ainda pra pensar sobre o jargão "ano novo, vida nova". Realmente a busca pelo seu próprio ser, pela sua essência se faz nova a cada novo ano, a cada nova semana, a cada novo dia; mas essa já é uma busca antiga, passada, remexida, empoeirada, que não se faz mais excitante por ser o primeiro dia de um novo ano. Ela se faz, cada vez mais pra mim, exaustiva, cicatrizada e com os pés no chão.


O novo só é a continuação dos que passarão - e que, eu, passarinho.


(...) estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. (...)Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

[Clarice Lispector, donzela que espera no topo do castelo alguma explicação.]


Um feliz ano velho embrulhadinho em um novo ano.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


saem dos subterrâneos das garagens
fazem dos seus carros armaduras
buzinam com raiva para os pedestres
entre gritos e mensagens em celulares

saem dos conjugados sem luz do sol
nas padarias pedem pão na chapa
procuram nas bolsas por seus cheques
em meio a cigarros, moedas e chaves

saem de bairros Jardim Qualquer Coisa
humilham-se deitados sob as catracas
alimentam as filas das construtoras
enquanto sonham com o vale-refeição

saem de buracos sob a linha de trem
correm com bugigangas nos braços
escapam das batidas dos fiscais
por entre ônibus, menfigos e frutas


saem das esquinas, nos semáforos
usam tênis e moletons com capuzes
encostam cacos de vidro nos pescoços
sob olhares de medo e votos de morte

saem dos portões com grades
vestem camisetas presenteadas
trocam passes por chocolates
entre o aperto de sovacos e coxas

saem de lojas de mármore e vidro
carregam sacolas com logotipos
escondem-se atrás de óculos escuros
para que a feiúra não lhes fira as retinas

pra onde voltam? que dor os arrasta?
que mó de pedra trazem no coração?
por que evitam olhar para os que passam?
onde um sopro, um vento, uma asa?


[GALVÃO, Donizete. - Curral
in Ruminações (1999)]

Esse curral à céu aberto chamado São Paulo, que consegue agregar tanto sensações de aconchego do meu próprio lar, de terra natal, como de repúdio, de não mais se adaptar a esse turbilhão de acontecimentos, e esse viver right now.

A metrópole da multidão de solidão.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


sobre os vestidos esvoaçantes

Olha, eu não deveria mais vestir um pedaço de tecido que já se considera "vestido" antes mesmo de abraçar meu corpo.
Trazer um particípio passado enrolado na pele é estar envolta nessas lembranças.


sobre os vestidos de algodão

Não, não te preocupa vestido!
Amanhã, quando o sol quente voltar ao céu
e todas as nuvens te quiserem de volta,
os dois pregadores, no varal, vão te salvar!




De quem poderia ser, se não dela?


Rita Apoena.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010


Teu aniversário, no escuro,
não se comemora.

[...] Em verdade paraste de fazer anos.
Não envelheces. O último retrato
vale para sempre. És um homem cansado
mas fiel: carteira de identidade. [...]

[...] Vejo-te mais longe. Ficaste pequeno.
Impossível reconhecer teu rosto, mas sei que és tu.
Vem da névoa, das memórias, dos baús atulhados,
da monarquia, da escravidão, da tirania familiar. [...]

[...] Queria abandonar-te, negar-te, fugir-te,
mas curioso:
já não estás, e te sinto,
não me falas, e te converso.
E tanto nos entendemos, no escuro,
no pó, no sono.

E pergunto teu segredo.
Não respondes. Não o tinhas.[...]

[...]E tu, que me dizes tanto
Disso não me contas nada.

Perdoa a longa conversa.
Palavras tão poucas, antes!
É certo que intimidavas.

Guardavas talvez o amor
Em tripla cerca de espinhos.

Já não precisa guardá-lo.
No escuro em que fazes anos,
no escuro,
é permitido sorrir.

[ANDRADE, C. Drummond de - Como um presente p. 135
in A rosa do povo, 42°edição, Ed. Record, Rio de Janeiro - São Paulo]


Envelheço na cidade;
"E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas".
- e dos anos.