sexta-feira, 16 de julho de 2010

"Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros.
Sinto isso".
[Fernando Pessoa]



Daqui a pouco, não vou enxergar mais: não vou querer ver.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

"Basicamente, eu queria que você me amasse
Eu queria que você precisasse de mim
Eu queria que você entendesse que quando eu pedisse dois torrões de açúcar, na verdade eu queria três
Eu queria que sem mim o seu coração se partisse
Eu queria que sem mim você passasse todas suas noites acordado
Eu queria que sem mim você não pudesse comer
Eu queria ser a última coisa em que você pensasse antes de dormir".

[The Nicest Thing - Kate Nash]


Resgatada do baú de músicas preferidas e sempre ouvidas, Kate Nash voltou a ter um espaço considerável essa noite.
Fez renascer uma pontinha de nostalgia misturada com grandes doses de um desejo de quereres egocêntricos, que nada mais são do que analgésicos para a alma. "Eu queria que sem mim você..."
Tudo isso, porém, de maneira sutil e envolta a uma camada consistente de nicest things.

quinta-feira, 1 de julho de 2010



"A solidão é fera, a solidão devora/É amiga das horas prima irmã do tempo/E faz nossos relógios caminharem lentos/Causando um descompasso no meu coração".



Não há nada mais concreto que ela -
a solidão.

segunda-feira, 28 de junho de 2010


Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;

Não venhas falar, nem sorrir.

Estou cansado de tudo, estou cansado

E quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando

Ou até sem sonhar,

Mas envolto num vago abandono brando

A não ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até

Pensar não foi certo em mim.

Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,

Escrevi numa página em branco, «Fim».

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,

Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro

Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,

Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,

Só quero dormir, uma morte que seja

Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales —

Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo

As esperanças e ambições que tive,

E hoje sou apenas um suicídio tardo,

Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,

Como um barco abandonado,

Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma

Sem se lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras

Entrevê na distância do mar

O fim do último representante das galeras,

Que não sabia nadar.


[PESSOA, F. - Cansaço - Poesias Inéditas (1919-1930) (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). - 78]


Sublimemente esgotada. No êxtase do sentir-se por um triz. Pifando o intelecto, o concreto e até mesmo o imagético.


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(BANDEIRA, M. Pneumotórax
in Estrela da Vida Inteira - p. 128)

¿Vamos bailar?

segunda-feira, 14 de junho de 2010


Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a idéia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de idéia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar.

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.

[Sereníssima - Legião Urbana]


Nostálgica e reflexiva - pensando-se.

sábado, 12 de junho de 2010

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

(Tenho tanto sentimento - Fernando Pessoa)



Ando assim, pensando, pensando... o que não penso, porém, é em parar de pensar.